Edição: Tomada Periférica
O Cultura Periférica é um canal que visa dar visibilidade a projetos de origens artísticas diversas, que exaltam a cultura nas periferias. Por aqui, temos exemplos de indivíduos e entidades que, através da cultura, apresentam uma nova perspectiva das periferias e seus habitantes, reforçando que nestes locais, o crime e a violência não são os únicos caminhos existentes como muitos pensam e é retratado pela grande mídia. Um projeto enraizado na periferia, e atualmente proporciona oportunidades para aqueles que pretendem ingressar no mundo da arte, é o Tomada Periférica, comandado pelo diretor de cinema Bruno Maciel.
Bruno concedeu uma entrevista ao podcast 'Cultura Periférica' e no decorrer do bate-papo, abordou os desafios para alcançar o reconhecimento como diretor, os preconceitos superados no processo, formas de ganhar dinheiro com conteúdos audiovisuais, formas de fazer seu projeto sair do papel e ainda citou detalhes sobre como desenvolver o cinema na periferia, o que deu origem à trajetória do 'Tomada Periférica'.
No início do programa, o jovem diretor de 26 anos, Bruno Maciel, nos explicou um pouco sobre a questão do “cinema de periferia”, citando que uma de suas grandes motivações para iniciar o seu projeto, se deu na época da escola, pois o seu sonho de se tornar um diretor de cinema, não era levado a sério. “Dizer que você quer ser diretor de cinema numa escola de periferia, é mesma coisa de você falar que quer ser astronauta, é quase que impossível”, menciona Bruno.
Ao longo da entrevista de Bruno, pudemos observar que sim, muitas vezes a força de vontade pode transformar a vida de alguém, porém, é evidente que muitas vezes uma oportunidade também é crucial. Em um mercado como o cinema, especialmente o nacional, as grandes marcas têm muito interesse em produzir filmes que retratem a realidade das comunidades, porém por interesses puramente financeiros. Dessa forma, segundo Bruno, certas marcas buscam sempre por periferias “mais renomadas”, como "Paraisópolis e Heliópolis" em São Paulo, o que acaba inibindo outras regiões e periferias de estarem em exposição para a grande mídia. Sendo assim, os profissionais de periferias menos reconhecidas precisam percorrer um caminho ainda mais estreito, a fim de conquistarem a visibilidade dos seus projetos no mercado audiovisual.
Abordando uma perspectiva mais técnica, o diretor do Tomada Periférica relembrou que no início de sua trajetória, com câmeras de classe inferiores e poucos equipamentos, optava muito pelo uso de planos fechados em suas produções, a fim de entregar um conteúdo de qualidade, considerando que não tinham acesso a cenários elaborados e poucos figurantes. Destacou também, que a equipe sempre buscava por lugares silenciosos para as gravações, e que o celular foi uma ferramenta fundamental para produção do áudio. É importante ressaltar, que graças a evolução dos seus equipamentos, e a perseverança da equipe, o 'Tomada Periférica' alcançou uma visibilidade de mercado excepcional, chegando a trabalhar com marcas como a VIVO e Kwai, além de participar de eventos como o Lollapalooza, um festival de música internacional de grande expressão.
Segundo o nosso entrevistado, ao mesmo tempo em que existe a necessidade de formar parcerias, e de trabalhar junto a grandes marcas, é também verdade que em muitas ocasiões, determinados estúdios e parceiros têm interesses secundários com tais movimentos. Diversos exemplos indicam que iniciativas de realizar produções na periferia são em sua grande maioria, meios de explorarem ambientes de fragilidade social, a fim de expressar uma mensagem distorcida sobre a realidade dos mesmos, uma forma de "explorar" e se beneficiar com tais produções, seja por uma questão moral ou econômica.
Outro ponto interessante abordado por Bruno durante o 'Cultura Periférica' é que, em muitas situações, não é o profissional mais qualificado que ficará com o cliente, mas sim o que se mostrar ser mais despojado e souber vender o seu trabalho. É importante causar uma boa impressão na hora de fazer negócio, e entrar em contato com as marcas que lhe apoiarão em seu projeto.
Quando questionado sobre a maneira como o 'Tomada Periférica' se sustenta, Bruno foi assertivo em sua resposta: “Levamos [um] filme para um festival, ganhamos o festival, ganhamos uma grana (...) amostras de cinema, casas de cultura, internet. Pessoa gera oportunidade, oportunidade gera negócio, e negócio gera dinheiro”. Além disso, Bruno também citou outras formas de ganhar dinheiro com audiovisual, como contar a sua história e cobrar por isso em lugares específicos; administrando redes sociais de comércios próximos; em cobertura de eventos, editais e palestras.
Por fim, discutimos sobre o poder de influência que as produções audiovisuais dentro das periferias têm, de moldar a forma como a sociedade enxerga determinados bairros e comunidades.
O objetivo do 'Cultura Periférica', é demonstrar ao público, por meio de projetos e pessoas, que as periferias não são um retrato de violência e regresso social em sua essência, mas sim, fontes de cultura e desenvolvimento, onde tais movimentos, como o 'Tomada Periférica', são capazes de nascer, crescer, e florescer em meio às incertezas e dificuldades que a sociedade os impõe.
Texto: Caio Sobral
Adaptações: Rafael Lima
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